Embora as eleições de 2026 ainda não tenham definido o próximo presidente do Brasil, o mercado financeiro já começou a reagir ao cenário eleitoral. Diante da disputa e dos resultados das pesquisas, investidores passaram a incorporar diferentes cenários para 2027 aos preços de ações, juros e câmbio.
Esse movimento é conhecido como “trade eleitoral”, estratégia em que investidores compram ou vendem ativos financeiros, como ações, dólar e juros futuros, considerando as projeções em relação ao resultado e aos rumos de uma eleição, incluindo seus possíveis impactos para o mercado financeiro.
Nos últimos meses, a Bolsa brasileira (B3) apresentou volatilidade justamente em meio às mudanças dessas expectativas. As pesquisas apontando uma disputa mais competitiva levaram o mercado a recalcular os cenários para o próximo governo diversas vezes.
Porém, o movimento não depende apenas das pesquisas eleitorais. A situação fiscal, a trajetória dos juros e o comportamento do investidor estrangeiro continuam no centro das decisões do mercado.
Influência das eleições 2026
O mercado financeiro não precisa esperar o resultado das urnas para reagir a uma eleição, já que os preços dos ativos refletem expectativas sobre o futuro.
Dessa forma, se uma mudança no cenário eleitoral altera a percepção dos investidores sobre impostos, gastos públicos, dívida, estatais ou regulação, essas expectativas podem aparecer nos preços antes mesmo de qualquer medida ser efetivamente implementada.

Nas eleições 2026, pesquisas passaram a mostrar uma disputa presidencial mais competitiva, fazendo com que investidores revisassem as probabilidades atribuídas aos diferentes cenários para 2027.
A reação dos investidores pode ser observada simultaneamente na B3, nos juros futuros e no dólar. O movimento, por outro lado, não significa que o mercado tenha uma definição sobre o resultado da eleição, mas sim uma reprecificação das expectativas.
Histórico de volatilidade
Esse tipo de comportamento não é novidade e faz parte da dinâmica observada em cenários eleitorais. Em 2022, por exemplo, o resultado do primeiro turno veio diferente da vantagem indicada por parte das pesquisas.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou o primeiro turno com 48,43% dos votos válidos, contra 43,20% de Jair Bolsonaro (PL). A diferença de 5,23 pontos ficou abaixo da vantagem indicada pelas principais pesquisas antes da votação.
No pregão seguinte, em 3 de outubro de 2022, o Ibovespa, principal índice da B3, subiu 5,54%, enquanto o dólar caiu 4,02%, para cerca de R$ 5,18.
Na época, além do resultado presidencial, a composição do Congresso também entrou na avaliação dos investidores. O ambiente externo, porém, também contribuiu para o desempenho dos ativos naquele pregão.
Vale ressaltar que o atual movimento de valorização da Bolsa não depende exclusivamente do cenário eleitoral.
A percepção sobre gastos públicos, arrecadação, dívida e capacidade de cumprimento das metas fiscais também influencia diretamente as expectativas para inflação e juros.
Por outro lado, uma percepção de maior previsibilidade sobre a política econômica pode alterar esse cálculo.
Dessa forma, o trade eleitoral ganha importância, já que, a depender da leitura que o mercado fizer das pesquisas, dos discursos dos candidatos e das propostas apresentadas durante a campanha, as expectativas podem continuar mudando.
Eleições 2026: impacto para o dólar
Para o dólar, a reação pode vir do fluxo de capital estrangeiro e da percepção de risco em relação aos ativos brasileiros. Uma maior procura por investimentos no país tende a favorecer o real, enquanto a saída de recursos pode exercer pressão sobre a moeda.
Após as eleições de 2022, por exemplo, o dólar caiu cerca de 4%, para perto de R$ 5,18, enquanto investidores reagiam ao resultado mais apertado do que indicavam as pesquisas e à nova composição do Congresso.

De acordo com um estudo publicado em 2025 pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), países de menor estabilidade política da amostra apresentaram fluxos privados brutos, que incluem entradas e saídas de capital, menores no trimestre eleitoral.
Para o estudo, foram analisadas 261 eleições em 38 economias emergentes entre 1990 e 2020, que encontrou uma redução dos fluxos privados de capital no entorno das eleições.
Além disso, o impacto foi maior quando a incerteza sobre a política econômica persistia após a votação e menor em países com maior estabilidade política e instituições mais fortes.
Efeitos nos investimentos
Diante do cenário observado, as eleições 2026 devem continuar adicionando volatilidade aos mercados brasileiros até o final de outubro, em caso de um possível segundo turno.
Assim, as expectativas serão ajustadas conforme novas informações surgirem no período, criando diferentes oportunidades e riscos para os ativos.
Em paralelo, o cenário fiscal continua sendo uma variável central. Uma eventual mudança na percepção sobre a sustentabilidade das contas públicas pode alterar juros, câmbio e valuation das empresas, independentemente do desempenho das pesquisas eleitorais.

Os fundos imobiliários também podem sentir os efeitos do cenário eleitoral, principalmente por meio das expectativas para os juros e para a política fiscal. Como parte dos investidores utiliza os FIIs como alternativa de geração de renda, mudanças na curva de juros podem alterar a atratividade relativa desses ativos.
Em um cenário de maior percepção de risco fiscal, por exemplo, a expectativa de juros mais elevados pode pressionar as cotas de determinados fundos, especialmente aqueles mais sensíveis à variação das taxas de mercado.
Por outro lado, uma melhora nas expectativas para a trajetória fiscal e para os juros pode mudar a percepção dos investidores em relação aos FIIs.
O trade eleitoral deve permanecer no radar dos investidores ao longo dos próximos meses, mas dividido com outros fatores que continuam determinando o preço dos ativos brasileiros.
Até o resultado das eleições, cada nova pesquisa, proposta econômica ou sinal sobre a política fiscal poderá provocar uma nova rodada de ajustes nas expectativas do mercado.
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